Manual da Inteligência Doméstica

•Outubro 31, 2007 • Deixe um comentário

Estou aplicando as noções aprendidas no “Manual de Inteligência Doméstica”, que consta basicamente em comprar apenas os produtos estritamente necessários, e usar tudo o que por algum motivo incerto e não sabido está abandonado em casa, incluindo roupas, objetos da casa, objetos pessoais, e produtos de higiene e limpeza. Esses que por sinal acabei de organizar. Reaproveitar e usar até o final são as novas ordens.

É incrível a quantidade de tubos de pasta de dente que não foram utilizadas até o final, porque em algum momento a tampa foi perdida, e a pasta secou impedindo assim, a saída do resto do conteúdo. Sempre que preciso de um “prestobarba” da vida, nunca tem um à mão. Achei milhares, todos novinhos pelas gavetas. Shampoos que por algum motivo só foram usados até a metade têm de monte. Sem perdão serão usados agora. Se causarem algum efeito indevido no cabelo (motivo pelo qual talvez tenham sido abandonados no passado) direi que é uma nova tendência, e milhões me acompanharão.

Assim será até o final dos estoques.
Batom por exemplo é uma coisa com a qual não preciso me preocupar. Tenho batom das mais variadas cores no mínimo pelos próximos 6 ou 7 anos!

O trânsito é intenso na descida da Rua Dr. Muricy.

•Outubro 29, 2007 • Deixe um comentário

O trânsito é intenso na descida da Rua Dr. Muricy.

Gente de todos os tipos estão subindo ou descendo pelas beiradas das marquises, apressadas com suas sacolas e bolsas. Acabaram de sair do trabalho, numa segunda-feira abafada, e precisam imediatamente entrar dentro de um ônibus direto para casa. Precisam ir embora pois um pé d’água está vindo. O céu está cinzento para os lados das Mercês, e é possível ver o jato branco de deus maltratando o bairro.

Enquanto isso sigo pela beirada da calçada, rente à parede, caminhando devagar, com todo o cuidado do mundo, atenta para não tropeçar. Sinto dor nesse meu pé aqui, e tive que vir com esse sapato hoje, porque a única calça limpa era justamente essa que não tem a barra feita, e que eu costumo usar com sapatos de plataforma ou salto. O pé está me maltratando por conta de um tombo que levei parada no Bosque do Alemão há umas duas semanas. No petit-pavé das calçadas curitibanas, qualquer bobeira é motivo de torção ou pé quebrado.

Na praça Zacarias as pessoas vão se enfileirando para atravessar o cruzamento entre a Dr. Muricy e a Marechal Deodoro. A praça está florida de pessoas de todas as idades, gêneros e cores de roupas. Uma mulher com um vestidão vermelho se destaca. Ela deve estar pensando que justamente hoje que ela resolveu colocar aquele vestidão lindo, resolveu chover. Eu sempre penso isso quando saio com calça branca ou sandália. A probabilidade de chuva no dia em que visto essas peças é de 100%.

Numa das filas percebo que só há mulheres. Uma ao lado da outra, estão lá mulheres de todas as idades, numa coincidência proporcionada pelo caos que impera as 18 horas de um dia. Não é diferente de qualquer cidade. Não, é sim. Há cidades mais calmas. Mas essa é a cidade em que eu vivo, e as pessoas estão se acotovelando para atravessar a rua, os motoristas estão buzinando e trocando insultos, as sacolas estão sendo carregadas às vezes até com mais cuidado do que certas crianças que são levadas de mãos dadas aos puxões por suas mães. Todos têm o mesmo objetivo: chegar em casa ou abrigar-se em algum lugar seco antes que a chuva comece.

Passo agora pela quadra das pastelarias de china e lojinhas de presentes e de R$1,99. As vitrines estão se enfeitando de Natal. Uma daquelas vitrines em especial eu queria fotografar. Mas não tenho câmera, também não tenho celular com câmera, e sinto uma falta louca de um gravadorzinho de mão. Deixa pra lá. Fotografo na mente, amanhã passo aqui de novo para apreciar a coleção de bonequinhos de louça de Papai Noel dos mais variados estilos. Se bem que amanhã o céu não estará com essa coloração (azul BIC) e nem esse cinza dramático no horizonte, que misturado com as luzes amarelas dos faróis e dos postes, me entorpecem.

O bafo quente e engordurado oriundo das pastelarias e lanchonetes me abraça a cada porta que alcanço, queria entrar num desses lugares, pedir um x-salada e uma Coca, e ver a chuva começar. Mas não tenho nenhum real no bolso. Dentro de dois dias terei, mas com certeza não vou gastar com isso. Um homem atravessa a rua bem ao meu lado, e grita para o outro que já conseguiu atravessar: – Quero tomar uma cerveja. Penso comigo no caos que me aguarda no tubo, e na chuva que logo vai despencar, e concluo: – Eu também!

Começa a chuviscar. Se eu não tivesse demorado tanto tempo no banco verificando o meu saldo, insistindo em sacar uma quantia que eu bem sei (e confirmei) ainda não foi depositada, eu não teria que caminhar um pouco mais rápido, curtindo essa dorzinha impertinente. Já estaria na fila do tubo, ou com muita sorte já estaria dentro dele. Agora preciso me concentrar bem mais nas pedras e buracos dessa quadra. Chego na esquina. A chuva engrossa. As gotas viram pingões gelados. Não vou esperar esse carro passar. Atravesso.

Na calçada das Lojas Americanas levo uma ombrada, desvio de uma poça de mijo, de uma mocinha oferecendo cartão na entrada, vou me esquivando do intenso tráfego de pedestres. Sorte a minha, na Marechal Floriano o sinaleiro dos pedestres está aberto. Vou me enfiando na fila, e num instantinho estou dentro do tubo, sem me molhar.

Vou para casa, tomar um banho e jantar.
Ainda tenho uma hora até chegar em casa.
Meu dia não acabou.
Procuro emprego.